Um filme portuguĂªs com alma francesa e uma pitada brasileira


Texto: Eduardo Abbas
Fotos: Europa Filmes

A difĂ­cil vida de nossos patrĂ­cios portugueses em sua terra natal provocou um grande Ăªxodo para os paĂ­ses mais ricos na Europa. Desde antes da crise do Euro, os lusitanos encontram uma grande dificuldade em se reerguer e voltarem a ser um paĂ­s de oportunidades para proporcionar ao seu povo, jĂ¡ sofrido com tantas crises desde o começo do sĂ©culo passado, uma melhora de vida.


Este ponto chave, nĂ£o tira do portuguĂªs a vontade de vencer na vida, seja no alĂ©m mar, seja no continente europeu. Trabalhadores por natureza, impecĂ¡veis em suas funções, os gajos enfrentam toda sorte de revĂ©s na vida para darem conforto aos seus.


NĂ£o Ă© por falta de vontade, mas sim de oportunidade, que os portugueses que se aventuram em outros paĂ­ses nĂ£o tĂªm a mesma chance que os nativos. SĂ£o reservados para eles os subempregos, aqueles que nenhum alemĂ£o, francĂªs, italiano ou atĂ© mesmo os espanhĂ³is nĂ£o se sujeitam a fazer.


É com essa cara de discriminaĂ§Ă£o que o diretor Ruben Alves escreveu e dirigiu uma obra singela e real da atual situaĂ§Ă£o dos lusos, mais precisamente na França. Em A Gaiola Dourada (Zazi Films / PathĂ© / Europa Filmes).


Maria (vivido pela excelente Rita Blanco) e JosĂ© Ribeiro (na pele de Joaquim Almeida que jĂ¡ andou muito pelo Brasil) sĂ£o imigrantes portugueses que vivem hĂ¡ mais de 30 anos na França. O casal mora num pequeno apartamento de um prĂ©dio situado num luxuoso bairro em Paris com seu casal de filhos.


Maria Ă© a porteira e JosĂ©, seu marido, trabalha com construĂ§Ă£o civil. Eles sĂ£o queridos pelos franceses devido Ă  honestidade, simplicidade e humildade, mas tambĂ©m porque nunca se recusaram a ajudar quem lhes pedisse ajuda. Certo dia, JosĂ© recebe a notĂ­cia que herdarĂ¡ uma grande soma do irmĂ£o que vivia em Portugal, e a vida do pacato casal transforma-se radicalmente: Ă© a grande oportunidade de regressarem ao paĂ­s de origem.


O argumento Ă© bom, a estĂ³ria bem escrita, mas a direĂ§Ă£o deixa um pouco a desejar. A falta de uma maior ousadia em se retirar dos atores uma força maior na atuaĂ§Ă£o, a forma quase documental com que os fatos sĂ£o relatados, a pouca opĂ§Ă£o de takes de suporte durante a aĂ§Ă£o entre dois ou mais personagens,  transformam essa que deveria ser uma obra Ăºnica em algo menos elaborado, Ă© quase um capitulo de novela. 
Isso em nada prejudica o produto final, ele tem seus momentos imperdíveis, quando, por exemplo, as mulheres falam misturando os idiomas, em meio a palavrões e risadas histéricas.


A fotografia Ă© feita pelo brasileiro AndrĂ© Szankowski, que mora em Portugal e teve uma carreira premiada na publicidade. A variaĂ§Ă£o de cores nas cenas internas e mesmo nas externas marca como uma referĂªncia subjetiva na narrativa, tipo, mesmo com a vida em cinza podemos enxergĂ¡-la colorida. Esse Ă© um grande diferencial, o colorido Ă© lindo, encanta por sua suavidade e sua enorme paleta, coloca um sorriso no rosto dos cansados portugueses que estĂ£o no filme. Tudo isso embalado pela trilha competentĂ­ssima do premiado maestro Rodrigo LeĂ£o, que nos faz realmente viajar nos casos e acasos da trama.


A Gaiola Dourada jĂ¡ estĂ¡ em cartaz nos cinemas brasileiros (estreou dia 28 de fevereiro) e pretende seguir sua trilha de sucesso de ser o filme mais visto em Portugal em 2013 e ter tido mais de 1milhĂ£o e 200 mil franceses nas salas de cinema. Detalhe: o filme Ă© falado em grande parte em francĂªs e tem algumas piadas em portuguĂªs. Vale cada minuto que se gasta no cinema, inclusive pelo final improvĂ¡vel, e atĂ© pela participaĂ§Ă£o especial do jogador de futebol Pauleta.


É uma Ă³tima receita para o fim de semana, bacalhau, estrogonofe, vinho, fado e tudo mais que o filme portuguĂªs pode nos proporcionar, inclusive uma aula de como se faz cinema bem feito gastando-se direito. Com um orçamento baixo se for comparado a filmes americanos, 7 milhões de Euros (cerca de 22 milhões de reais) o filme jĂ¡ arrecadou mais que isso sĂ³ na França. Quem sabe nĂ£o podemos aprender com os portugueses a administrar melhor o dinheiro, atĂ© porque no Brasil com todas as leis e impostos e outras coisinhas mais, esse valor nĂ£o daria nem para o figurino.

A gente se encontra na semana que vem!

Beijos & queijos

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