Voltando
ao tema preferido desde a infĂ¢ncia, o diretor deixa mais dĂºvidas que respostas
Texto: Eduardo Abbas
Fotos: Universal Pictures
Ă€s vezes, traduzir o tĂtulo de filme com algo que se assemelhe a um evento para criar engajamento, cria uma expectativa errada do que vĂªm pela frente. Sou contra esse tipo de aĂ§Ă£o de marketing, principalmente porque o dia em questĂ£o foi uma pĂ¡gina sangrenta da histĂ³ria da humanidade e foge completamente do cerne da questĂ£o na obra cinematogrĂ¡fica, por outro lado, trata-se de uma associaĂ§Ă£o forçada de uma recriaĂ§Ă£o feita pelo diretor em uma de suas obras mais icĂ´nicas. Uma traduĂ§Ă£o nĂ£o literal de “disclosure” poderia explicar melhor o que estĂ¡ por vir, mas vamos deixar assim para nĂ£o criar inimigos.
O tema percorre o imaginĂ¡rio desde sempre, a crença em visita extraterrestre no planeta perdeu um pouco do charme desde o momento em que a NASA colocou seus telescĂ³pios no espaço e começamos a olhar para o cĂ©u com menos emoĂ§Ă£o e desejo de encontrar uma civilizaĂ§Ă£o mais avançada, nĂ£o que talvez nĂ£o exista, mas hoje temos a certeza que as estrelas nĂ£o representam enxergar o futuro, mas sim o passado do universo. No que tange ao filme, isso pouco importa, afinal de contas, a fantasia nos trouxe atĂ© aqui e claro, sonhar Ă© preciso para poder um dia realizar.
Sonhar e realizar Ă© com esse senhor mesmo, Steven Spielberg faz isso hĂ¡ mais 60 anos e agora lança um de seus projetos mais audaciosos e cheio perguntas sem respostas. Estreia hoje nos cinemas brasileiros Dia D (Amblin Entertainment, Universal Pictures), uma obra que ele imaginou, escreveu, produziu e dirigiu com a maior competĂªncia e dedicaĂ§Ă£o, com fez a carreira toda.
No longa, a meteorologista (a Ă³tima Emily Blunt) emite sons estranhos durante uma transmissĂ£o ao vivo, um especialista cibernĂ©tico (Josh O'Connor) Ă© o Ăºnico que consegue entender e Ă© perseguido pelo chefe de uma corporaĂ§Ă£o (o sempre bom Colin Firth) de onde ele havia roubado dados de segredos governamentais.
As cenas de aĂ§Ă£o tĂªm a marca do diretor, sĂ£o muito bem dirigidas e mesclam o jĂ¡ conhecido humor com o caos em que estĂ£o envolvidas, jĂ¡ as atuações sĂ£o, em alguns casos, mecĂ¢nicas, quem se sobressai Ă© aquele que jĂ¡ tem uma bagagem maior. A especialidade se tornou acessĂ³rio, os efeitos especiais e visuais pontuam a trama, sĂ£o bem realizados e nĂ£o apresentam a complexidade de outras obras, o que sempre hipnotizou ficou em segundo plano.
A fotografia de Janusz Kaminski Ă© limpa e usa recursos impressionantes de drone em cenas mais aceleradas, a montagem de Sarah Broshar consegue prender o espectador e tirar o fĂ´lego em alguns momentos, jĂ¡ a mĂºsica de John Williams segue uma trilha menos invasiva, Ă© sutil e pontuada sem grandes alardes como suas obras anteriores. O que me deixou indignado foi o erro de continuidade com o automĂ³vel sujo, parece coisa de filme menor, sem a preocupaĂ§Ă£o em um detalhe berrante, serĂ¡ que nĂ£o daria pra gastar alguns dĂ³lares e “sujar” o carro no computador na montagem final?
Dia D Ă© obrigatĂ³rio para quem ama a temĂ¡tica e o diretor, tem orçamento divulgado de US$ 115 milhões, um merchandising absurdo de uma montadora de carros, vai te segurar no cinema por 2 horas e 25 minutos e mostrar um Spielberg que ainda acredita em vida fora da Terra, mas nĂ£o consegue criar o sucessor, afinal de contas, quem vai continuar sonhando o sonho sonhado desse senhor que esse ano chega aos 80?








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