O remake deste sucesso dos anos 80 tropeçou em um detalhe: como provocar os chuviscos dos televisores nos dias de hoje?

Texto: Eduardo Abbas
Fotos: FOX

Parece uma besteira, mas o grande charme do primeiro filme da franquia era o fato da televisĂ£o estar fora do ar e, comum na era de transmissĂ£o analĂ³gica, os chuviscos em branco e preto e o som, que lembrava enxames de abelhas, assustavam quem acordava com a televisĂ£o ainda ligada. Foi a partir desta situaĂ§Ă£o corriqueira e atĂ© certo ponto assustadora que Steven Spielberg imaginou a primeira versĂ£o deste clĂ¡ssico do suspense e terror.


Existe ainda a desconfiança de que o badalado produtor e diretor tenha sido o responsĂ¡vel tambĂ©m pela direĂ§Ă£o do filme, fato que ele nega atĂ© hoje, pois na Ă©poca ele estava preso a um contrato com a Universal atĂ© a entrega de ET, O Extraterrestre e nĂ£o poderia assinar outro longa no perĂ­odo antecedente Ă  estrĂ©ia. Pelo sim, pelo nĂ£o, durante as Ăºltimas dĂ©cadas, quem levou os louros foi Tobe Hopper, que nunca fez nada muito expressivo, nem antes nem depois, mas o filme marcou uma geraĂ§Ă£o de espectadores e se tornou um dos mais aclamados do gĂªnero no mundo.


Com toda essa herança nas costas, encarar um remake seria uma coisa de maluco que estĂ¡ querendo se queimar, mas nĂ£o foi o que aconteceu, na verdade esta Ă© seguramente a melhor adaptaĂ§Ă£o de filme que tem como base os anos 80, tanto pela estĂ³ria quanto pela realizaĂ§Ă£o. Em Poltergeist, O FenĂ´meno (Metro-Goldwyn-Mayer; Ghost House Pictures, Vertigo Entertainment, 20th Century Fox), o cineasta e produtor Sam Raimi (lembrado pela trilogia de Homem-Aranha) e o diretor Gil Kenan (tem como destaque a animaĂ§Ă£o A Casa Monstro) contemporizam o clĂ¡ssico sobre a famĂ­lia que vive em uma casa assombrada por forças malignas. Quando as terrĂ­veis aparições se tornam mais freqĂ¼entes e a filha mais nova Ă© capturada, a famĂ­lia deve se unir para resgatĂ¡-la antes que ela desapareça para sempre.


O eixo central Ă© o mesmo da primeira versĂ£o, mas a trama Ă© outra, mais atual, escancara os tempos de crise que o mundo de hoje, afinal vivemos em uma aldeia digital interconectada que abandona os homens Ă  sua sorte. Antigamente pensĂ¡vamos que o futuro nos traria mais conforto e segurança, na verdade ele cria situações de abandono dos seres humanos, viver passou a ser um sobreviver, Ă© a mĂ¡xima que prova ser necessĂ¡rio vender o almoço para se comprar o jantar.


As atuações sĂ£o corretas e, em certos momentos, burocrĂ¡ticas, SAM ROCKWELL (O VerĂ£o da Minha Vida, Os Descendentes, Homem de Ferro 2, Cowboys & Aliens) que interpreta o desempregado e enfadonho Eric Bowen, forma par com ROSEMARIE DEWITT (Homens, Mulheres e Filhos, O Mensageiro, Terra Prometida) a matriarca Amy Bowen, que tem nesta versĂ£o uma participaĂ§Ă£o menos contundente.


As melhores interpretações, atĂ© porque devem ter sido mais ensaiadas, sĂ£o das duas crianças, Kyle Catlett no papel de Griffin Bowen e Kennedi Clements a seqĂ¼estrada Madison Bowen, eles realmente convencem e formam o par mais harmonioso da trama. Os outros atores seguem uma trilha quase como coadjuvantes de luxo, mas conseguem, graças ao talento individual, suprir uma deficiĂªncia tanto do roteiro quanto da direĂ§Ă£o.


Com muitos sustos embutidos, elementos da natureza que se transformam em assustadoras criaturas, planos-seqĂ¼Ăªncia criados por drones (uma febre agora no cinema), ediĂ§Ă£o e trilha sonora alinhadas a uma excelente captaĂ§Ă£o em 3D, Poltergeist, O FenĂ´meno faz jus aos US$ 35.000.000 gastos na produĂ§Ă£o e compactados em 93 minutos de uma re-leitura nascida de uma das mentes mais brilhantes do cinema.


É um filme para ser assistido acompanhado, Ă© perturbador em alguns momentos e nĂ£o vale muito a pena ficar sozinho em uma sala escura vendo tudo que esta acontecendo na tela. Dificilmente vamos encontrar um outro remake com tanta qualidade, o filme jĂ¡ entrou em cartaz no Brasil, que, por coincidĂªncia agora vai migrar definitivamente para a era da televisĂ£o digital, Ă© uma boa oportunidade para saber o que pode vir por aĂ­, quando estiver fora do ar.


A gente se encontra na semana que vĂªm!

Beijos & queijos

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